Sobrepeso e obesidade
Dra. Livia Faccine, endocrinologista em Moema, São Paulo
Do que se trata
A obesidade é definida pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, em quantidade suficiente para gerar prejuízo à saúde. É reconhecida como uma doença crônica por entidades médicas nacionais e internacionais — e não como uma questão de falta de esforço ou de força de vontade.
Sua origem é multifatorial. Fatores genéticos, ambientais, comportamentais, qualidade do sono, uso de determinados medicamentos e algumas condições endocrinológicas participam do quadro em proporções que variam de pessoa para pessoa. É justamente essa combinação que torna a avaliação individualizada necessária.
Como é avaliada
O índice de massa corporal (IMC) é o parâmetro mais usado para classificar sobrepeso e obesidade, por ser simples de calcular e comparável entre populações.
Ele tem limitações importantes, porém: não distingue massa muscular de massa gorda, nem informa onde a gordura está distribuída no corpo. E essa distribuição é, do ponto de vista de risco, mais relevante do que o número isolado da balança.
Por isso a avaliação costuma incluir outros elementos, como a medida da circunferência abdominal e, quando disponível, a análise da composição corporal — que permite estimar separadamente a massa gorda, a massa muscular e a gordura localizada na região do abdome.
A gordura visceral
Nem toda gordura corporal se comporta da mesma forma.
A gordura subcutânea, localizada logo abaixo da pele, funciona sobretudo como reserva de energia. Já a gordura visceral, acumulada entre os órgãos da cavidade abdominal, é metabolicamente ativa: produz substâncias inflamatórias e interfere no funcionamento do fígado, dos vasos sanguíneos e do metabolismo da glicose.
É por isso que duas pessoas com o mesmo peso podem ter riscos bastante diferentes, a depender de onde essa gordura está.
Síndrome metabólica
O acúmulo de gordura visceral está diretamente relacionado à síndrome metabólica, que não é uma doença isolada, e sim a coexistência de um conjunto de alterações que costumam aparecer juntas:
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aumento da circunferência abdominal
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elevação dos triglicérides
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redução do colesterol HDL, o chamado "colesterol bom"
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aumento da pressão arterial
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elevação da glicemia de jejum
O diagnóstico é feito quando três ou mais desses critérios estão presentes, considerando valores de referência específicos e o contexto de cada pessoa.
O que dá importância a esse agrupamento é o efeito conjunto: a presença simultânea dessas alterações eleva o risco cardiovascular e o risco de diabetes tipo 2 mais do que a soma de cada uma delas isoladamente. É também o principal terreno sobre o qual se desenvolve a esteatose hepática.
Esteatose hepática
Entre as consequências mais relevantes do acúmulo de gordura visceral está a esteatose hepática — o acúmulo de gordura no fígado. Ela é hoje entendida como a expressão hepática dessa mesma disfunção metabólica, e é uma das principais causas de doença hepática crônica no mundo. Merece atenção por três motivos.
É silenciosa. Não costuma provocar sintomas, e pode estar presente mesmo quando os exames de função hepática vêm dentro da normalidade.
É progressiva. Em parte dos casos evolui para inflamação do fígado, e daí para fibrose, cirrose e, em situações mais avançadas, câncer hepático.
É frequentemente ignorada. Muitas vezes é encontrada por acaso, em um ultrassom pedido por outro motivo, e recebe a interpretação de que "não é nada" — quando na verdade é um sinal de disfunção metabólica que merece investigação.
Não existe obesidade saudável
Esta é a mensagem central desta página.
Circula a ideia de que, se os exames de sangue estão normais, o excesso de peso não representaria problema. A evidência disponível não sustenta essa interpretação.
Pessoas com obesidade e exames metabólicos normais — pressão, glicemia e colesterol dentro da faixa esperada — ainda apresentam risco cardiovascular aumentado em comparação com pessoas sem obesidade e com os mesmos exames normais. Além disso, esse estado tende a ser transitório: acompanhadas ao longo dos anos, a maior parte dessas pessoas desenvolve alterações metabólicas.
Exames normais indicam que o organismo ainda está compensando. Não indicam ausência de risco.
A relação com o câncer
Há outro ponto menos divulgado. O excesso de gordura corporal está associado ao aumento da incidência de pelo menos treze tipos de câncer, segundo agências internacionais de pesquisa — entre eles os de mama após a menopausa, endométrio, intestino, rim, fígado, pâncreas, esôfago e tireoide.
Essa associação é independente do resultado dos exames de sangue. Ou seja, ela se mantém mesmo naquelas pessoas classificadas como "metabolicamente saudáveis".
Quando procurar avaliação
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IMC na faixa de sobrepeso ou obesidade, mesmo sem sintomas
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aumento da circunferência abdominal
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achado de esteatose hepática em exame de imagem
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alterações de glicemia, pressão arterial, triglicérides ou colesterol
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diagnóstico prévio de síndrome metabólica
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histórico familiar de obesidade, diabetes ou doença cardiovascular
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ganho de peso progressivo, ou dificuldade em manter o peso perdido
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apneia do sono, sonolência diurna ou sono de má qualidade
A avaliação em consulta busca entender os fatores que contribuem para o quadro em cada pessoa, investigar as condições associadas e definir uma conduta adequada àquele contexto. O acompanhamento tende a ser de longo prazo, como se espera de qualquer condição crônica.
Outros temas
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta devem ser definidos individualmente por um médico.