Bioimpedância: por que avaliar a composição corporal
Dra. Livia Faccine, endocrinologista em Moema, São Paulo
O que a balança comum não mostra
O peso corporal é um número único que reúne coisas muito diferentes: massa muscular, massa de gordura, ossos e água. Duas pessoas com a mesma altura e o mesmo peso podem ter composições corporais bastante distintas — e, com isso, riscos de saúde bastante distintos.
A bioimpedância é um exame que separa esse número. Em vez de informar apenas quanto a pessoa pesa, ela estima quanto desse peso corresponde a massa de gordura, quanto corresponde a massa magra e como essa gordura está distribuída, incluindo a porção acumulada na região abdominal.
É um exame rápido, indolor, realizado durante a própria consulta.
Na avaliação inicial
Na primeira consulta, a composição corporal funciona como ponto de partida. Ela permite entender o quadro com mais precisão do que o peso e o IMC isoladamente, e ajuda a definir o que faz sentido priorizar em cada caso.
Há uma situação em que essa diferença fica especialmente evidente: pessoas com peso dentro da faixa considerada normal, mas com proporção elevada de gordura corporal e pouca massa muscular.
Do ponto de vista da balança, está tudo certo. Do ponto de vista metabólico, não necessariamente. Esse padrão está associado a resistência à insulina, alterações do perfil de colesterol e aumento do risco cardiovascular — em graus que podem se aproximar dos observados em pessoas com sobrepeso.
É um quadro que passa despercebido com frequência, justamente porque o peso não chama atenção. E é uma das razões pelas quais a avaliação da composição corporal tem valor mesmo para quem não busca tratamento para perda de peso.
No acompanhamento do tratamento
No tratamento de sobrepeso e obesidade, a composição corporal responde a uma pergunta que a balança não consegue responder: o peso que está sendo perdido vem de onde?
O objetivo do tratamento é a redução da massa de gordura com preservação da massa magra. Quando a perda de peso acontece de forma muito rápida, sem acompanhamento adequado ou sem atenção à alimentação e à atividade física, uma parcela relevante do que se perde pode ser massa muscular.
Isso importa por três razões:
Compromete o resultado a longo prazo. A massa muscular participa do gasto energético diário. Perdê-la tende a dificultar a manutenção do peso alcançado e a favorecer o reganho.
Compromete a função. Força, equilíbrio, desempenho físico e capacidade de realizar atividades cotidianas dependem da musculatura — e essa perda pesa mais à medida que a idade avança.
Não aparece na balança. Uma pessoa pode estar perdendo peso de forma consistente e, ainda assim, estar perdendo massa magra junto. Sem a avaliação da composição corporal, isso permanece invisível até se manifestar de outra forma.
Acompanhar essas medidas ao longo do tratamento permite perceber esse tipo de desvio a tempo e ajustar a conduta.
Como interpretar os resultados
Dois pontos práticos.
O resultado da bioimpedância é um exame complementar, não um diagnóstico em si. Ele ganha sentido quando lido junto com a história clínica, o exame físico e os exames laboratoriais.
E, como em qualquer exame de acompanhamento, o que interessa é a evolução, não o valor isolado de um único dia. Para que a comparação entre avaliações seja confiável, é desejável que sejam feitas sempre no mesmo aparelho e em condições semelhantes.
Outros temas
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta devem ser definidos individualmente por um médico.